• Bruno Zocchi

Algumas lições das Olimpíadas de Tóquio para a psicologia



As olimpíadas são um evento que nos faz pensar sempre melhor do ser-humano e do que ele é capaz. A cada quatro anos (cinco, excepcionamente dessa vez, em um ciclo olímpico afetado pela pandemia de Covid-19), somos expostos a inúmeros exemplos e histórias de superações, conquistas, alegrias e tristezas da vida de milhares de atletas cujos sonhos orientam-se por um objetivo: conquistar a tão sonhada medalha olímpica.


Por muitas vezes, enxergamos os atletas como máquinas. Máquinas que executam movimentos perfeitos, calculados e apresentam uma integração tão fascinante de peças que são capazes de executar performances inimagináveis para uma pessoa comum. No entanto, enxergar seres-humanos como máquinas tem seu perigo: máquinas não sentem, não pensam, não se emocionam. E por muito tempo, foi parte da força de um atleta agir de tal forma, com frieza e indiferença frente a obstáculos que não atingem máquinas, mas atingem a nós humanos, atletas, performers e até eu e você: os obstáculos do nosso cérebro e da nossa mente.


Mas os Jogos Olímpicos de Tóquio mostraram ao público que essa figura, a do atleta de aço, coração e mente inabaláveis, não precisa existir. Pelo contrário, não é saudável que ela exista. Fomos bombardeados com momentos nos quais ficou claro o papel do psicológico e da saúde mental na performance de um atleta de alto rendimento. Mais do que isso, vimos que está tudo bem ser assim... E que um equilíbrio entre mente e corpo pode tornar grandes feitos possíveis. A newsletter PotencialMente deste mês quer relembrar alguns desses momentos.


1. Naomi Osaka acendendo a pira olímpica


Naomi Osaka é uma das maiores tenistas da atualidade. Vencedora de quatro títulos de Grand Slams (os mais importantes do circuito do tênis), a atleta japonesa abriu os olhos do mundo ao se ver forçada a desistir do torneio de Roland Garros em maio deste ano após ser coagida a comparecer às entrevistas e coletivas de imprensa obrigatórias pós-partidas, contra a sua vontade, pela organização do torneio. O motivo para essa desistência foi atentar-se à sua saúde mental, sobretudo para a depressão que estava encarando havia alguns meses. Então, Osaka retirou-se do circuito por tempo indeterminado, mesmo contando com o apoio de inúmeras colegas, patrocinadores e personalidades do mundo do esporte.


Seu retorno, no entanto, não poderia ser mais especial. Em casa, Osaka foi escolhida para acender o maior símbolo olímpico dos jogos: a pira (ou tocha) olímpica. Sua escolha por parte do comitê organizador dos jogos selou o fato de que não deve haver quaisquer motivos para vergonha ou punição de um atleta ou qualquer pessoa por conta de seu estado mental. Ao contrário da postura daqueles que desdenharam de sua condição, os Jogos de Tóquio mostraram a Naomi Osaka que, ainda em fase de tratamento de seu estado mental, o Japão a reconhece como exemplo esportivo e pessoal para toda uma nação.


2. As desistências de Simone Biles e seu olhar para o lado mental


Simone Biles é multimedalhista olímpica e mundial na ginástica artística. Com apenas 24 anos, ela já acumula mais de 23 ouros entre olimpíadas e campeonatos mundiais. Em Tóquio, chegou como favorita para todas as modalidades da ginástica artística. No entanto, após sua participação na classificatória do individual geral, no qual as atletas circulam por todos os equipamentos, Biles aunciou sua desistência de todas as competições com exceção da trave, sua especialidade.


Esse anúncio chocou o mundo do esporte e o coração de todos que esperavam ansiosamente por seus saltos e acrobacias executados tão perfeitamente. O motivo para essas desistências, como no caso de Naomi Osaka, foi declarado por ela: cuidar de sua saúde mental.


Na ginástica, qualquer erro pode significar uma lesão para o atleta que executa a manobra. Nesse sentido, estar se sentindo bem fisicamente e mentalmente é indispensável para a participação em provas de alto nível como um torneio olímpico. Biles teve a coragem necessária para dizer a si e ao mundo: preciso privilegiar minha saúde mental. Para isso, retirou-se de competições, abriu mão de medalhas e buscou o apoio psicológico do comitê olímpico americano.


Apesar de não ter levado nenhum ouro na ginástica das olimpíadas de Tóquio, Biles nos brindou com uma frase muito importante: "Acho que a saúde mental é mais importante nos esportes nesse momento. Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos e não apenas sair e fazer o que o mundo quer que façamos." E esse ensinamento por si só já vale ouro!


3. A importância da âncora de Tom Daley


Tom Daley é um atleta britânico dos saltos ornamentais. Após duas medalhas de bronze em olimpíadas anteriores, Daley conquistou em Tóquio seu primeiro ouro olímpico. E uma das razões que o mergulhador olímpico apontou que o ajudaram neste feito não poderia ser mais inusitada: seu amor por tricotar!


Daley afirmou que o hábito de tricotar e fazer crochê antes das competições foi aquilo que mais o manteve são e tranquilo durante os jogos. Mais do que isso, o atleta afirmou que tricotar o ajudava a manter a calma antes dos saltos, de forma que ele pudesse controlar a ansiedade e a expectativa e dar o seu melhor na plataforma de mergulho.


Daley nos forneceu um incrível exemplo do poder de uma âncora para a alta performance. Uma âncora é algo que estabelecemos como um ponto seguro. É algo que podemos focar e nos concentrar em momentos de ansiedade de forma a nos trazer ao momento presente e nos acalmar.


E essa âncora pode ser muitas coisas, como sua respiração, a sensação de suas mãos, pés ou outra parte do corpo, uma palavra a ser repetida várias vezes, uma música de conforto ou, até mesmo, um hobbie, como no caso do crochê de Tom Daley!


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Os Jogos Olímpicos acabaram. Essas lições, no entanto, permanecerão conosco durante muito tempo. Cada vez mais, o entendimento da importância de se preservar e se atentar à saúde mental é difundido e observado nas mais diversas situações. Cabe a nós, assim, desconstruir a noção de que atletas, profissionais de alto desempenho ou qualquer outra pessoa deve agir como uma máquina, inibindo aquilo que sente e passa em seus pensamentos. Pelo contrário, não há maior força que admitir que precisa de uma âncora, de uma pausa ou mesmo de uma intervenção com um profissional da saúde mental.


Agora, é hora de aproveitar os Jogos Paralímpicos e esperar por 2024. Que outras lições nos aguardam?


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