• Bruno Zocchi

Uma Homenagem ao Pai do Neurofeedback

No texto de hoje, uma singela homenagem ao Dr. Joe Kamiya, o Pai do Neurofeedback.



O que faz a história de uma pessoa?


São suas contribuições para o mundo de uma forma ampla? É aquilo que deixa como legado para suas pessoas queridas? Ou mesmo, em uma perspectiva menos grandiosa, apenas a satisfação de uma vida grata e feliz quando o fim dela se aproxima?


Acredito que todas essas respostas fazem sentido...


* * *


Em 1926, em uma California ainda em desenvolvimento, nascia Joe Kamiya, filho de Shizuko Kamiya, imigrante japonesa já no começo daquele século. Além dele, Shizuko tinha outros dois filhos, irmãos mais velhos de Joe.


Existe pouca informação para explorarmos a respeito da infância e adolescência de Joe. Sabemos que ele foi casado, teve um filho, Gary, depois se divorciou e casou-se novamente com sua parceira no amor e na pesquisa, Joanne.


A parte da vida de Joe que mais salta aos olhos de quem o pesquisa é, no entanto, sua contribuição para a ciência, sobretudo, para a Psicologia Fisiológica. Em um momento de franca expansão da compreensão da importância de se olhar ao funcionamento cerebral para se compreender diferentes estados de consciência, Joe foi fundamental por direcionar sua visão a algo que, hoje, mais de 50 anos depois, é uma ferramenta que traz bem-estar, qualidade de vida e esperança a centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. Joe Kamiya é o pai daquilo que chamamos "neurofeedback".


O Dr Joe Kamiya graduou-se na Universidade da Califórnia, em Berkeley e iniciou suas descobertas no campo do neurofeedback em Chicago, na década de 60. Durante esse período, pouco ainda se sabia sobre o eletroencefalograma (EEG) e estados de consciência e comportamentos associados. Mais do que isso, não se tinha certeza a respeito da possibilidade de se alterar os padrões do EEG de pessoas por meio do condicionamento operante. Já se sabia, por meio dos experimentos de Barry Sterman - outro gigante no campo do neurofeedback e da neuromodulação - que era possível condicionar gatos a alterarem o padrão de seu EEG por meio da visualização em tempo real dessa atividade associada a estratégias de reforçamento e extinção. Entretanto, ninguém ainda havia sido capaz de demonstrar isso de forma satisfatória em seres humanos.


Foi aí então que, em 1968, mais ou menos 6 anos após sua primeira publicação sugerindo o controle humano sobre a alteração de seu EEG, Joe publicou seu estudo "Conscious control of brain waves" (em tradução livre: "Controle consciente das ondas cerebrais"), na revista "Psychology Today". Nesse estudo, Joe conseguiu demonstrar que sim, por meio de estratégias de condicionamento operante muito parecidas com aquelas utilizadas com os gatos de Sterman, era possível fazer com que um ser humano alterasse o padrão de seu EEG por meio de sua visualização em tempo real. Foi precisamente a partir daí que um grande novo campo de pesquisa se iniciou: a neuromodulação autorregulatória por EEG em tempo real, ou, como é popularmente conhecida, neurofeedback.


No entanto, as contribuições de Joe Kamiya para esse campo não se restrigiram a isso. Dez anos depois, em 1978, Joe publicou, em parceira com o Dr. James Hardt - um de seus mentores e outra figura muito importante para o desenvolvimento do neurofeedback em seu princípio - o estudo "Anxiety change through electroencephalographic alpha feedback seen only in high anxiety subjects" em uma das mais importantes revistas científicas do mundo, a "Science". Nesse estudo arrematador, Kamiya e Hardt demonstraram pela primeira vez que indivíduos ansiosos poderiam diminuir seus níveis de ansiedade por meio do aumento do nível de frequências alfa (mais inibitórias) em seu EEG. Mais do que isso, que esse aumento de alfa poderia ser alcançado por meio de pouco tempo de treinamento com Neurofeedback. A partir disso, nesses últimos 40 e poucos anos, tanto se pesquisou que hoje temos diversos protocolos e estratégias para combater a ansiedade por meio da neuromodulação, sendo esse mais um legado do grande Dr Joe Kamiya para o campo de pesquisa do neurofeedback, para a psicologia, a ciência e a saúde pública em geral.


Joe Kamiya, contudo, não era apenas um cientista dedicado. Seus colegas de pesquisa e sua família nunca pouparam elogios à pessoa por trás de tantas descobertas e realizações para a ciência. Em seu livro, "Joe Kamiya: Thinking Inside the Box", publicado em setembro do ano passado, os co-autores Cynthia Kerson e Tom Collura o descrevem como uma pessoa encantadora, querida e compassiva, atenta às necessidades não somente da ciência, mas das pessoas. Um pai maravilhoso e um grande homem de família também são adjetivos que permeam a vida de Joe, na figura de seu filho Gary e sua esposa Joanne. Além disso, Joe era uma pessoa cujas amizades priorizava preservar, como no caso de seus colegas Jim Johnston - que o ajudou a desenvolver os primeiros aparelhos de medição de EEG -, Thomas Browne - clínico de neurofeedback e mentorado por Joe - e Jay Gunkelman - especialista em EEGq e parceiro de campo de Joe -, sendo descrito como alguém que se importava fortemente com as pessoas ao seu redor, ao mesmo tempo em que fazia as melhores perguntas para suas pesquisas.


Infelizmente, Joe veio a falecer na última terça-feira, dia 13 de julho, em sua casa na Califórnia, aos 95 anos de idade. Ele deixa a mulher Joanne, filhos e netos, além de inúmeros amigos e admiradores ao redor do mundo. Seu legado apresentado em parte nesse texto quebrou barreiras e abriu portas para inúmeros avanços dentro do campo da psicologia fisiológica, das neurociências e da neuromodulação como um todo. Mais do que isso, seu olhar empático, genuíno e futurista deixou registrado em seu livro não somente sua gratidão por tantos anos de pesquisas, descobertas e amizades feitas no caminho, mas o desejo da universalização das ferramentas de autorregulação como o neurofeedback a todos aqueles preocupados com o desenvolvimento humano.


Suas lições e sua memória andarão conosco por muito, muito tempo. Nosso sincero obrigado, em nome de todos aqueles que se apoiam em seus ombros para ver mais longe.


Em memória do Dr. Joe Kamiya (1926-2021).


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