Neurofeedback é Ciência ou "Neurofuleiragem"?

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Alguns esclarecimentos importantes precisam ser feitos.

Uma psicóloga com milhares de seguidores nas redes sociais compartilhou as imagens anteriores em seu perfil no Instagram. Fica clara a sua posição a respeito do Neurofeedback: ela considera "Neurofuleiragem". Vejamos que não há interesse em desenvolver essa crítica. Ela é apenas feita sem discussão.

"Fuleiro", segundo o dicionário(1), significa algo "sem valor", "insignificante", ou mesmo "pouco confiável". Logo, associar o Neurofeedback a esse termo por meio de "Neurofuleiragem" busca invalidar completamente o valor clínico dessa prática, associando-a a uma mera "enganação".

Todos podem ter as opiniões que quiserem sobre determinado assunto. Isso é algo pessoal. Mas essa opinião pode ser mais ou menos ignorante com base no que observamos na realidade. Na ciência - e isso vale para a ciência médica e psicológica - o grau de confiabilidade de uma prática ou experimento se deve aos resultados e replicabilidade dos estudos publicados.

Logo, sabemos que para invalidar e desconsiderar algo cientificamente, temos que nos certificar de que não existem estudos razoáveis ou suficientes para considerar eficaz aquilo que estamos invalidando. Ou que os estudos e publicações que invalidam a prática são mais confiáveis. Na opinião particular e não desenvolvida da psicóloga, o Neurofeedback se enquadra nisso, por isso ela considera a prática mera "Neurofuleiragem".

Infelizmente, esse não é um caso isolado. Muitas vezes pessoas sem conhecimento da prática ou outros profissionais acabam emitindo opiniões controversas que buscam invalidar o Neurofeedback e outras metodologias de neuromodulação autorregulatória enquanto abordagem terapêutica, classificando-as como ineficazes e inconfiáveis.

Mas, como sabemos, isso não é verdade. Eis os porquês:

 

1. CONFIABILIDADE DOS ESTUDOS

O Neurofeedback trata-se de uma modalidade de Neuromodulação Autorregulatória e vem sendo estudado enquanto possibilidade de intervenção clínica e maximização da performance desde os anos 60(2), sendo que, com os avanços das neurociências, muito se tem publicado sobre o assunto nos últimos 20 anos, sobretudo nos EUA, Canadá e Espanha, mas o campo vem sendo cada vez mais estudado e pesquisado no Brasil.

Em plataformas como PubMed(3), Research Gate(4), Elsevier(5), Frontiers(6) e muitas outras, é possível achar uma gama muito extensa de estudos, artigos, livros e outras publicações que tratam do Neurofeedback e buscam avaliar sua aplicabilidade, especificidade, eficácia, efetividade, etc.

Obviamente, não é a quantidade, mas sim a qualidade das publicações que podem conferir ao Neurofeedback o status de prática confiável, com boas chances de oferecer resultados. E nesse sentido, também estamos sendo muito bem abastecidos, sobretudo nos últimos anos, nos quais tem-se buscado cada vez mais fazer pesquisas com elevado grau de confiabilidade dentro do campo do Neurofeedback(7).

A partir disso, vemos sendo publicados cada vez mais estudos com grupos extensos de participantes(8), grupos de controle(9), grupos de comparação com placebo e outras modalidades de intervenção(10), privilegiando a aleatoriedade e condições "double-blind", além de metodologias mais replicáveis, equipamentos mais modernos e inteligentes e estudos de "follow-up" cada vez mais contínuos e extensos(11).

Esses tipos de estudos são considerados padrão-ouro para se avaliar a eficácia de uma intervenção terapêutica, que pode ir do nível 1 (sem sustentação empírica) aos níveis 4 (eficaz) e 5 (eficaz e específico). Vamos falar mais sobre isso daqui a pouco.

Evidentemente, existem muitas dificuldades inerentes e críticas a serem feitas aos estudos da prática. O fato de ainda trabalhar com amostras não tão grandes (milhares de participantes), não haver muitos estudos com populações não urbanas, o dilema de basear sua intervenção em protocolos únicos ou individualizados e muitos outros obstáculos se erguem(12). Nossa missão enquanto pesquisadores e clínicos de Neurofeedback é buscar, pouco a pouco, superar essas dificuldades com novas pesquisas e publicações.

 

E temos feito isso.

 

2. RECOMENDAÇÕES DO NEUROFEEDBACK ENQUANTO TRATAMENTO

O Neurofeedback, em seus primórdios, começou a ser pesquisado em três condições clínicas diferentes. Barry Sterman (UCLA) mostrou que o Neurofeedback por EEG poderia ser eficaz na inibição de processos convulsivos em indivíduos com mal epiléptico(13). Joe Kamiya pesquisou a relação do EEG com a ansiedade em indivíduos ansiosos e demonstrou ser possível alterar o padrão eletroencefalográfico dos pacientes com melhora nos quadros ansiosos(14). Por fim, Joel Lubar iniciou os estudos com crianças com TDAH, obtendo resultados clínicos muito satisfatórios(15).

A partir disso, muito se pesquisou e se pesquisa a respeito dos impactos do Neurofeedback em outras condições, como no Transtorno do Espectro Autista (TEA)(16), na depressão(17), na esquizofrenia(18), no Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT)(19), problemas relacionados ao sono(20) e à aprendizagem(21), dores crônicas(22), e mais.

As pesquisas têm buscado alçar o Neurofeedback ao patamar de intervenção com eficácia nível 5 para muitos transtornos médicos, psíquicos e psiquiátricos diferentes. Esse é um caminho de muito trabalho e tempo de estudo, mas já colhemos alguns frutos.

Alguns protocolos de Neurofeedback para o tratamento do TDAH já são verificadamente de eficácia nível 5, ou seja, o Neurofeedback atua de maneira específica e eficaz para diminuir os sintomas do TDAH(23), inclusive, com pesquisas indicando ganhos iguais ou maiores que intervenções farmacológicas(24) ou puramente comportamentais e que esses ganhos se sustentam por 1, 2 e mesmo 5 anos em alguns casos(25).

Inclusive, a Associação Americana de Pediatria, em 2012, passou a recomendar o Neurofeedback como primeira intervenção clínica para crianças com TDAH, atestando a confiabilidade da metodologia para o tratamento dos sintomas do transtorno(26).

 

3. ASSOCIAÇÕES QUE CERTIFICAM E REGULAMENTAM A PRÁTICA

Muitas das pesquisas a respeito do Neurofeedback são frutos do incentivo de associações e instituições que enxergam grande potencial de aplicabilidade nessa metodologia. Duas das maiores são a International Society for Neuroregulation and Research (ISNR)(27) e a Biofeedback Federation of Europe (BFE)(28). Essas instituições contam com médicos, psicólogos, neurocientistas, engenheiros biomédicos, desenvolvedores de softwares e muitos profissionais de muito gabarito que constantemente realizam eventos, conferências, workshops, cursos e trabalhos de pesquisa conjunta com o objetivo de tornar o Neurofeedback mais reconhecido e mais acessível ao público.

Além disso, há também a Biofeedback Certification International Alliance (BCIA)(29), instituição que visa a regulamentar a prática do Neurofeedback por profissionais da medicina e psicologia ao redor do mundo, promovendo sempre o comprometimento com a pesquisa e a ética dentro desse campo.

No Brasil, temos a Associação Brasileira de Biofeedback (ABBIO)(30) como instituição que agrega profissionais e estudantes que trabalham e convivem com as metodologias de Biofeedback e Neurofeedback, promovendo a pesquisa e a clínica com essas práticas. Além disso, apesar de o Conselho Federal de Psicologia não emitir notas sobre a prática, alguns conselhos regionais, como o CRP da 15ª região emitiram pareceres favoráveis à prática do Neurofeedback e outros processos associados às neurociências para psicólogos desde que haja capacitação pessoal, teórica e técnica para tanto(31).

No entanto, infelizmente, ainda não há um órgão regulador aqui no Brasil, aos moldes da BCIA, o que algumas vezes pode fazer com que pessoas acabem por se promover com a prática, mas sem o domínio e competência para tal coisa, prejudicando os muitos profissionais sérios que pesquisam e aplicam essas metodologias diariamente com o objetivo de promover mais bem estar e qualidade de vida aos seus pacientes.

*     *     *

 

São por esses e muitos outros motivos que o Neurofeedback pode ser considerado uma prática científica baseada em evidências(32). Isso de forma alguma quer dizer que o campo de estudo e aplicação dessa metodologia é perfeito. Como foi dito, ainda há muito a ser feito, sobretudo com a publicação de estudos nacionais, de grande amostragem e bons controles para diversas condições.

Apesar disso, é evidente que a simples deslegitimação da prática enquanto modalidade de intervenção por achismo ou falta de conhecimento não tem o objetivo de construir um Neurofeedback melhor e mais embasado. Ao contrário, posturas como a da profissional citada apenas desvalorizam o trabalho árduo de pesquisadores, médicos e psicólogos no Brasil e no mundo que se esforçam para desenvolver uma alternativa não invasiva e não medicamentosa ao tratamento de diversos distúrbios.

Mais grave ainda, por se aproveitar de uma posição de influenciadora e ao falar para um público amplo, leigo e que por muitas vezes pode estar buscando alternativas de tratamentos médico-psicológicos, a psicóloga age de forma a prejudicar pessoas que poderiam ter sua saúde física e mental melhorada por meio do Neurofeedback e outras modalidades de Neuromodulação.

O objetivo desse texto, dessa forma, é trazer à tona o conhecimento acerca do Neurofeedback e os porquês de não se tratar, de forma alguma, de “Neurofuleiragem”. Muito pelo contrário, é também uma das possibilidades de basear a prática psicológica em uma prática realmente baseada em evidências.

Esperamos que esse texto possa esclarecer melhor alguns fatos e que ele possa chegar ao maior número de pessoas possível. Vamos sempre cumprir nossa missão de levar o conhecimento mais longe e combater a propagação de desinformação a respeito do Neurofeedback e da clínica de neuromodulação.

Caso você tenha gostado desse texto, compartilhe-o. Se conhecer alguém com dúvidas a respeito da validação científica do Neurofeedback, envie esse texto para essa pessoa. Não aceite a propagação de desinformação e fake news a respeito do assunto. Fazendo isso, você ajuda milhares de pessoas que podem se beneficiar a partir do trabalho e aplicação da metodologia.

 

Patrícia Zocchi, Psicóloga, Neuropsicóloga (USP), supervisora Brain-Trainer International no Brasil e membro da ABBIO.

Bruno Zocchi, graduando em Psicologia (USP), membro da Liga Acadêmica de Neurociência, Psicofisiologia e Percepção (LANPP) do IP-USP, profissional associado à ISNR e membro da ABBIO.

 

LINKS PARA AS REFERÊNCIAS:

Aqui nesses links você pode encontrar diversos dos melhores estudos que atestam a eficácia do Neurofeedback, além de outras informações e sites relacionados.

  1. https://www.dicio.com.br/fuleiro/

  2. https://philpapers.org/rec/KAMCCO

  3. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/

  4. https://www.researchgate.net/

  5. https://www.elsevier.com/pt-br

  6. https://www.frontiersin.org/

  7. https://academic.oup.com/brain/article/143/6/1674/5807912

  8. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19908142/

  9. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnhum.2014.00906/full

  10. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30278582/

  11. https://c1c32704-7111-41ae-a1d1-e0b56401bb8c.filesusr.com/ugd/b4e23d_841a1f7810d547ca8ef82142eb7439d2.pdf

  12. https://hal.inria.fr/hal-02436755/document

  13. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/4113278/

  14. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/663641/

  15. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/990355/

  16. https://c1c32704-7111-41ae-a1d1-e0b56401bb8c.filesusr.com/ugd/b4e23d_4f21d4b6f23748d09dcddb6f31548ecf.pdf

  17. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6823520/

  18. https://repositorio.unifesp.br/bitstream/handle/11600/58434/Gomes%2C%20Neuromodula%C3%A7%C3%A3o%20em%20Esquizofrenia.pdf?sequence=1&isAllowed=y

  19. http://braintrainut.com/wp-content/uploads/2013/10/Peniston-alpha-theta-PTSD.pdf

  20. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19826944/

  21. http://scholar.google.com.br/scholar_url?url=http://www.isnr-jnt.org/article/view/16955/10877&hl=pt-BR&sa=X&ei=RaamYIeIHNONy9YPw4O7kAg&scisig=AAGBfm2PAqrtSGZ58q6qupjzsEhSQWg5VQ&nossl=1&oi=scholarr

  22. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7378966/

  23. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19715181/

  24. https://link.springer.com/article/10.1023/A:1022353731579

  25. http://scholar.google.com.br/scholar_url?url=https://www.isnr-jnt.org/article/view/17168/11085&hl=pt-BR&sa=X&ei=_aemYMvgEYLgmQH00I_ABA&scisig=AAGBfm2lrtBR7CubE78I19Sv9p9ywbJVeg&nossl=1&oi=scholarr

  26. https://c1c32704-7111-41ae-a1d1-e0b56401bb8c.filesusr.com/ugd/b4e23d_8610085853c64e4898f25d89d86816d7.pdf

  27. https://isnr.org/

  28. https://bfe.org/

  29. https://bcia.org/

  30. http://www.abbio.com.br/

  31. https://www.crp15.org.br/2017/03/nota/

  32. https://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.1077.8576&rep=rep1&type=pdf